Horizonte Profundo

Mesmo que os sistemas de estimativa do tem- po sejam produzidos por cabeças e mãos huma- nas, é inegável que ele passa, com ou sem nossa supervisão. Sua ação sobre a matéria é natural, como a gravidade, avaliada, dessa vez, por uma série de leis da física. O dia e a noite, as estações do ano, a velhice e a morte, e no caso da obra de Patrick Tedesco, o gelo que derrete, são de- monstrações exemplares da lei suprema: o tem- po passa, sim, e continuará passando. Ao contrário dos relógios, o gelo induz a pensar o tempo de maneira caótica: não há contagem exata que defina seu derretimento e sua estru- tura material é terrivelmente sensível; uma pequena mudança de temperatura aceleraria o processo – outra inegável força da física. A ma- nutenção desse caos é a ação do artista, a tímida captura, os olhos que observam: retratar o corpo que derrete, pacientemente. Numa absoluta con- versão do objetivo do gelo, esvair-se em água, a imagem fotografada aprisiona o processo, con- tabiliza, como um ponteiro, e define quanto tem- po levou para o derretimento completo. Genero- samente, expõe seu resultado: aqui está o gelo, aqui está a água. Essa subversão artística, como todas as subver- sões, perpassa com tranquilidade os limites da regra e, como toda proposição artística, é dota- da de esferas multifacetadas de entendimento. O registro permite repensar a lei da física: uma vez em posse do artista, o derretimento pode ser acelerado, paralisado, invertido; a curiosidade permite que se congelem objetos, retratos, co- res; o jogo afetivo de memória e apego é instala- do como um tabuleiro onde as peças derretem e marcam a superfície. E positivamente irônica é a ação do artista quando captura o tempo. Ainda mais quando coloca essa regra à vista, disposta diante do público como para constatar uma ex- periência científica: o tempo passa, eis a prova. Na cidade, quando empurrado por crianças, o bloco de gelo parece dizer: sou eu, o tempo, um dia acabo. Pat r i c k T e d e sc o

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