Horizonte Profundo

plificador. Voltemos à montanha: ele é o binóculo. Permite a visão, mesmo que pontual, de uma pers- pectiva distinta. Um ponto da montanha, uma ár- vore, uma rocha, um indivíduo. A criação de uma nova ficção: a história de uma montanha que se ra- cha, como Horácio descreve. “Os montes parirão, e nascerá um ridículo rato”. Esopo, tomado do binó- culo, aproxima a vista: a sua “piada do não”, a mon- tanha que emite um estrondo, que prenuncia o fim do mundo, para então se abrir e parir um rato. “Entre o parto e o estrondo”, de Ali do Espírito San- to, não é sobre a montanha de Horácio ou Esopo. Pode não ser, de todo, sobre montanhas ou ratos. As narrativas do absurdo, sob a ótica da ideia artística, possuem essa liberdade. Mas é interessante que a pressuposição da obra, senão ligada ao sentido das histórias é, nomínimo, ligada nominalmente a elas. Estar entre o parto e o estrondo, no caso de monta- nhas e ratos, é o prenúncio apocalíptico, a última expectativa. O fim dos tempos, no fim das contas, não importa: o artista chama a estar entre, apenas. Como observadores ansiosos, esperamos pela con- clusão fantástica de nossas próprias ficções parti- culares, convidados de honra do apocalipse. “Os pés sonham suspensos no abismo”, diz o artis- ta - ou nós mesmos, em nossas cabeças, enquanto lemos, ou um narrador maior, dono de nossas fic- ções, ou ninguém - e completa: “entre as colisões, o parto e o estrondo”. E então somos lançados, os espectadores ansiosos da tragédia, no campo sus- penso da subjetividade artística, um jardim babilô- nico pós-apocalíptico. Voltamos ao entendimento primordial, o mundo das imagens. Vemos o artista, um corpo no espaço, diante do azul interminável e inominável. Em sua mão, um guarda-chuva em chamas. Um prenúncio de guerra ou uma trégua dos sentidos. A serenidade da imagem é a expec- tativa diante do desconhecido. Somos novamente mudos e o silêncio tensiona o espaço. A linearidade temporal não importa: no mundo pós-apocalíptico das imagens artísticas, o tempo é uma ferramen- ta, bem como o significado. Estamos submersos na ficção azul do artista, inertes e ansiosos, esperando que o espaço seguro do “entre” permaneça para a eternidade.

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