Horizonte Profundo
A fuga que promovem para um ponto de con- templação no horizonte evidencia um retorno íntimo e subjetivo para si e uma indagação so- bre o jogo de dualidade e associação que existe entre o ambientado e o ambiente. Esse embate no qual nunca deixamos de exercer um papel crucial, tardio e muito provavelmente repleto de angústia. Sensações de “deixar para trás”, “ou- vir o estrondoso silêncio”, “desviar-se de si” e “diluir a matéria” mesclam a interiorização de uma certeza que paira sobre os trabalhos: “nas- cer leva tempo”. Assim, sem deixar de abrir dis- cussões sobre a linguagem da performance, da fotografia, da escultura e da instalação, as obras parecem sugerir a percepção de que existe uma inquietude, uma ruptura desconfortável com o lugar que nos cabe neste mundo. As águas do Guaíba, a Lagoa dos Patos, as margens, o obje- to em chamas, o derretimento e o colocar-se na terra, por mais que se insiram numa lentidão visual programada, são intervenções de uma travessia, um movimento, um turbilhão de deli- cadezas que avançam constantemente. Avassaladora também é a sua radicalidade no vazio. A incerteza e a ambiguidade, partes fun- damentais para as questões sobre os fins e co- meços, os lugares e não-lugares e o movimento interno e externo, vão surgindo quando todos os elementos utilizados nos trabalhos param, se desintegram, desambientam-se e voltam nova- mente a existir. Uma revelação de que tudo que conhecemos está permanentemente mudando, se desfazendo, ressurgindo e que não temos con- trole sobre a busca na qual seremos lançados. Nossa substância é um colocar-se no inesgotá- vel fluxo que reúne o sentimento de “um mundo sem nós” e um “nós sem um mundo”, pouco a pouco andando, buscando o caminho do próprio caminho, numa travessia turva, triste e som- bria. É a temporalidade daqueles que unificam passado e presente e estabelecem um mapa da compreensão do território de si, lançam uma cartografia da expressão mais íntima e veem a vida circular na terra.
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